Em um contexto de tratamento oferecido pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) aos policiais militares usuários de drogas lícitas e ilícitas, a pesquisadora Fernanda Cruz analisa as diretrizes adotadas no tratamento e suas justificativas. O artigo aborda ainda o processo de reconstrução do indivíduo conduzido no decorrer do tratamento, traçando um interessante diálogo com a literatura sociológica. De acordo com a autora, em 1992 o tratamento oferecido pela PMERJ sofreu uma reformulação e além da desintoxicação a partir da internação de caráter voluntário, adotou-se a metodologia dos Doze Passos, característica de irmandades como Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos Anônimos (NA). Cruz aponta que o processo de reconstrução do self observado no tratamento ofertado aos policiais, permitia novas interpretações e justificativas para os seus comportamentos sem que suas trajetórias sofressem necessariamente um apagamento. Ademais, a autora chama atenção para o fato de que “ao atribuir a doença a uma pré-disposição individual há uma suavização da relação entre a exposição às drogas e o estresse a que esses sujeitos estão submetidos, em detrimento de uma visão de que esses indivíduos já carregam comportamentos compulsivos antes de entrarem na corporação”. (CRUZ, 2020, p. 185)