
IPPES no Jornal Estadão. Confira!
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Por Kathlen Barbosa e Caio Brasil,
Jornalistas e pesquisadores do IPPES.
Mais que a própria morte, o maior medo durante a pandemia é de perder um familiar ou amigo, revelam os resultados preliminares da pesquisa Coronavírus: Medo, Percepções e Crenças na Cidade do Rio de Janeiro, publicada no dia 16 de junho. Desenvolvida pelo Laboratório de Análise da Violência (LAV), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em parceria com o Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), a pesquisa contou com a participação de 1.203 moradores da capital fluminense, entre os dias 4 e 15 de maio.
Segundo a socióloga Dayse Miranda, pesquisadora e presidente do IPPES, esses números revelam a dificuldade de “saber lidar com a morte”, principalmente de entes queridos. Para ela, a morte trágica e coletiva, que acontece em escala mundial, tem um efeito muito grande sobre o emocional das pessoas, principalmente dos jovens. “Após a pandemia, vamos ter o desafio da posvenção, que é o trabalho de cuidar desse adoecimento psíquico, da saúde mental das pessoas que ficam, as vítimas que serão atingidas por terem perdido seus entes queridos”, explica a pesquisadora.
Mais da metade das pessoas que responderam ao formulário online disponibilizado pelo IPPES disse ter muito medo, desconforto ou preocupação com o coronavírus. O medo de morrer pela doença atinge 40% dos entrevistados e, ao pensar na Covid-19, 13,5% deles não conseguem dormir e 18,8% sentem palpitações. A pesquisa também revelou que a percepção do medo varia de acordo com a aprovação das gestões municipal, estadual e federal. Entre os apoiadores da gestão Bolsonaro, o maior medo é ficar sem condições financeiras de sustentar ou manter a família. Metade acredita que a pandemia é uma estratégia política, 41% afirmam ser uma histeria coletiva e menos de 50% concorda que o isolamento social pode evitar problemas maiores no futuro.
Os números são diferentes no grupo dos que não aprovam: 12,6% acredita que a pandemia é uma estratégia política, 7% afirma que a pandemia é uma histeria coletiva e 76% creem que o isolamento pode evitar um problema maior no futuro. “Os dados referentes ao público bolsonarista revelam uma questão política e ideológica muito relacionada ao discurso de atores políticos, como do próprio presidente Jair Bolsonaro. Esse tipo de fala, que diminui o potencial e a representação do que de fato é o coronavírus, tem o efeito de influenciar o comportamento dessas pessoas sobre a forma de ação e de percepção”, comenta o coordenador da pesquisa, Doriam Borges, pesquisador do LAV e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ.
Moradores de favela, mulheres e pessoas que não aprovam o atual governo federal compõem o grupo que manifesta mais sintomas de medo e preocupações relacionadas ao coronavírus, segundo a pesquisa. Além disso, o estudo demonstra que as pessoas que se infectaram com o coronavírus foram as que menos tiveram suas atividades cotidianas alteradas durante a quarentena. Moradores de favela ficaram mais expostos por questões de sobrevivência. Elas tiveram que sair de casa para trabalhar e acessar o transporte público. “Os resultados dizem muito a respeito do comportamento social e da desigualdade social. O fato de os moradores de favela se sentirem extremamente inseguros diante do coronavírus, na verdade, revela a ausência de políticas públicas e de uma estratégia por parte do Estado naquelas áreas”, esclarece Doriam Borges.
O estudo também revela que grande parte dos entrevistados apresentam sentimentos de angústia, ansiedade, cansaço, dificuldade de concentração, sensação de medo, pânico e fracasso neste momento de pandemia. Além disso, 45% das pessoas ficam nervosas ou ansiosas ao acessar notícias sobre a doença nas mídias sociais e que mais da metade apresenta dificuldade de concentração ou pouco interesse e prazer para executar suas atividades de trabalho. “Esses dados nos levam a pensar sobre como a sociedade vai se organizar e investir na saúde mental da população, seja por meio de políticas públicas, trabalho de ONGs e/ou nas escolhas individuais. É preciso gerar uma campanha de mudança de qualidade de vida, seja durante a quarentena ou no pós-pandemia, para que possamos enfrentar esse grande desafio que será o problema da saúde mental”, ressalta Dayse Miranda.
Noticiários de rádio e TV foram a forma principal de acesso à informação sobre a doença para mais da metade dos entrevistados, entretanto, 75% apresentam desconhecimento sobre ao menos um aspecto da doença e suas formas de contágio. Durante a quarentena, todos os participantes evitaram ao menos uma atividade cotidiana, mas ir ao supermercado foi a atividade menos evitada. Confira os resultados proliminares da pesquisa clicando aqui.

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