
IPPES no Jornal Estadão. Confira!
Matéria aborda um dado preocupante na Segurança Pública no País. Pelo ...
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Quando a travesti Dandara dos Santos, de 42 anos, foi espancada e morta no meio da rua em Fortaleza, em fevereiro de 2017, sua morte foi gravada em vídeo, e a gravação se espalhou pela internet. O caso expôs a brutalidade contra pessoas LGBTQIA no Brasil: só em 2017, houve 445 assassinatos de homossexuais, bissexuais e transgêneros, de acordo com levantamento do Grupo Gay da Bahia com base em casos publicados na mídia. Segundo o relatório, em 2017 o número de homicídios na população LGBTQIA subiu 30% em relação a 2016.
Diante da brutalidade da morte de Dandara, passou despercebida uma informação: ela era frequentemente xingada e humilhada na rua, como uma espécie de Geni do Brasil contemporâneo. Xingamentos, abusos e violência são cotidianamente enfrentados por pessoas LGBTQIA, sigla cada vez mais ampla para abranger todxs aquelxs para quem sexo e gênero não são necessariamente iguais. Além da violência à espreita nas calçadas ou dentro de casa, questões relacionadas à família e à aceitação da identidade de gênero fazem deste grupo uma população que tem o sofrimento mental como parte da rotina.
Ao longo dos últimos anos, vários estudos têm se dedicado ao sofrimento mental da população LGBTQIA, encontrando neste grupo taxas maiores de tentativa de suicídio ou de suicídio em relação aos heterossexuais. O problema se repete entre jovens, e um estudo de referência na área foi realizado em 2012 pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. De acordo com tal estudo, a probabilidade de um jovem gay cometer suicídio é cinco vezes a de um jovem heterossexual. O ambiente tem impacto direto no sofrimento mental do jovem, mostrou a pesquisa, apontando que, para adolescentes que se sentem socialmente aceitos, na escola e na família, o risco é menor.
Em diálogo com a preocupação de investigar o sofrimento mental da população LGBTQIA, os textos listados abaixo resultam do esforço para colaborar na compreensão deste tema. Propositalmente, trazem uma interface multidisciplinar, com abordagens variadas. Há desde revisões de leitura, úteis para quem começa a estudar o assunto, até resultados de pesquisas qualitativas e quantitativas, com uso de metodologias diversificadas. Do ponto de vista geográfico, percorrem Brasil, Europa e Estados Unidos.
Em comum, todos apontam a necessidade de priorizar, nos programas de prevenção ao suicídio, a população LGBTQIA. São uma aposta em mais acolhimento, menos sofrimento e menos casos como o de Dandara.
Boa leitura!
(Clique nos títulos dos textos para acessá-los)
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O texto faz uma revisão da literatura científica recente sobre a associação entre desajuste socioemocional e orientação sexual, analisando variáveis como estigma social, a discriminação e a homofobia internalizada. Por meio da base de dados Web of Knowledge (Web of Science), foram selecionadas 644 referências. A partir delas, os autores analisam 14 artigos e concluem que, segundo tais estudos, o estigma, o abuso físico, a discriminação e a homofobia internalizada estão associados a uma pior saúde física e mental, nomeadamente a níveis mais altos de stress psicológico, consumo de substâncias, sintomatologia depressiva, ideação e a tentativas de suicídio. São discutidas as implicações práticas dos dados encontrados .
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Em diálogo com outros estudos que mostram a maior taxa de suicídio entre pessoas LGBT, em comparação com heterossexuais, este trabalho discute a associação entre abuso na infância e tentativas de suicídio, comparando LGBTs e heterossexuais. O estudo mostra que a experiência de sofrer abuso é significativa na configuração da identidade LBGT e na tentativa de suicídio, destacando ainda a relevância, para o tema, de experiências de discriminação sofridas pela população LGBT.
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A publicação traz os resultados de uma ampla pesquisa realizada na Irlanda com apoio de agências governamentais, instituições acadêmicas e associações ativistas da causa LGBT. A iniciativa fez parte também do programa irlandês de prevenção ao suicídio. Foram ouvidas 1.110 pessoas numa pesquisa on line, e 40 realizaram entrevistas em profundidade. Com resultados impressionantes, a pesquisa mostra que 80% dos entrevistados já haviam sofrido abuso verbal e 25% já haviam sofrido violência física. No que se refere ao sofrimento mental, 86% dos entrevistados já tinham sofrido de depressão em algum momento da vida. Para 60% dos participantes, a depressão aparecia como diretamente associada a questões referentes à identidade de gênero.
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Numa revisão de leitura a partir de 41 estudos localizadas em bancos como The Cochrane Database, PsychINFO, MEDLINE, Web of Science and Google Scholar, o estudo recupera análises sobre pessoas LGBT com mais de 60 anos. A revisão de leitura proposta indica como tais estudos ajudam a entender as influências psicossociais no envelhecimento de pessoas LGBT, entre as quais estão o desafio de enfrentar o estigma e a discriminaçãoii, mas também a resiliência que tais indivíduos demonstram.
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MCDERMOTT, Elizabeth, ROEN, Katrina & SCOURFIELD, Jonathan. “Avoiding shame: young LGBT people, homophobia and self?destructive
Behaviours”. Culture, Health & Sexuality: An International Journal for Research, Intervention and Care, 10:8, 815-829, DOI: 10.1080/13691050802380974.
O estudo traz as conclusões de uma pesquisa qualitativa conduzida no Reino Unido apontando conexões entre as identidades de gênero e comportamentos autodestrutivos entre jovens, num diálogo com evidências de outros estudos apontando taxas elevadas de suicídio e abuso de álcool entre jovens LGBTs. Os dados do sugerem uma ligação forte entre a homofobia sofrida pelos jovens e comportamentos autodestrutivos. Numa abordagem que analisa o discurso, os autores mostram como a homofobia pune profundamente sua vítima. O estudo também mostra como os jovens convivem com formas distintas de homofobia, seja pela minimização do problema, seja pela formação de uma identidade adulta, seja pela construção afirmativa de uma identidade de gênero.
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Com abordagem qualitativa e quantitativa, o estudo aborda experiências da população no serviço de saúde mental da Irlanda, a fim de apontar problemas e acertos, bem como identificar boas práticas de trabalho na abordagem do público LGBT. A pesquisa ouviu 125 pessoas com mais de 18 anos. Para 64% dos entrevistados, falta aos profissionais conhecimento para lidar com a população LGBT.
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O artigo reflete sobre associação entre bissexualidade e comportamento suicida a partir de uma extensa revisão da literatura sobre o tema. Numa seleção de 77 artigos de jornais científicos, 19 foram analisados. A partir deles, os autores mostram que indivíduos bissexuais têm um risco maior de suicídio e de tentativas de suicídio comparados a pessoas homossexuais e heterossexuais. Entre os fatores de risco estão vitimização e rejeição da família, e há relatos frequentes de doença mental e abuso de substâncias. O artigo conclui que, diante desse quadro, é preciso estar alerta para o sofrimento mental deste grupo e para sua difícil integração social.
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O estudo traz as conclusões de uma de uma pesquisa de metodologia qualitativa realizada na Inglaterra e no País de Gales para investigar as conexões entre suicídio, comportamento autodestrutivo de jovens e identidade sexual. Grupos focais e entrevistas foram utilizados como metodologia. O estudo analisa como jovens LGBT se posicionam a respeito de categorias como resiliência, ambivalência e comportamento autodestrutivo (incluindo automutilação e suicídio). Analisa também a necessidade de priorizar o grupo LGBT nos programas de prevenção do suicídio.
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Os autores trazem os resultados de um estudo que realizaram em 2009, junto a 2.282 adolescentes de ambos os sexos, alunos do ensino médio em três cidades do Oeste Paulista, tentando conhecer associações entre orientação sexual e ideações e tentativas de suicídio. Os resultados corroboram pesquisas internacionais e evidenciam que os não heterossexuais têm mais chances de pensarem e tentarem suicídio. Entre adolescentes que se assumiram não heterossexuais, os mais vulneráveis são aqueles que se autodefiniram bissexuais e “outros”. Os próprios alunos também expressaram opiniões e valores homofóbicos, sexistas e heterocentrados, o que revela ser o espaço escolar, onde se encontram esses jovens não heterossexuais, bastante carregado de posicionamentos discursivos discriminatórios.
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A pesquisa analisa a ideação suicida e a tentativa de suicídio entre pessoas LGBT que prestaram serviço militar recentemente nos Estados Unidos. Conclui que tanto a ideação como a tentativa podem ser 20 vezes mais altas entre pessoas transgênero que entre os não trans. Discriminação e rejeição estão ligadas à maior frequência de tentativas de suicídio entre pessoas trans. Segundo os autores, os resultados sugerem que formas de reduzir o estresse associado à identidade de gênero podem ser uma forma importante de prevenção do suicídio no meio militar.
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Fernanda da Escóssia
Jornalista e professora universitária; pesquisadora associada do GEPeSP e doutoranda no CPDOC/FGV

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