
IPPES no Jornal Estadão. Confira!
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O conjunto de textos selecionados pelo GEPeSP sobre a temática da saúde mental entre indígenas permite construir um painel histórico e analítico sobre de que modo o tema vem sendo abordado na pesquisa acadêmica brasileira desde os anos 1980. Um destaque é a perspectiva interdisciplinar dos textos, que percorrem conceitos das áreas de psicologia, medicina, história, sociologia, antropologia e comunicação.
Longe da visão cristalizada pelo senso comum, a de povos indígenas vivendo num paraíso bancado pelos cofres públicos, os textos ajudam a refletir sobre como as etnias indígenas brasileiras têm sido profundamente afetadas por um modelo de colonização calcado no extermínio: no século XVI o Brasil tinha 5 milhões de indígenas, mas em 1991 eram apenas 294 mil.
Nos textos escolhidos, fica clara a associação, por exemplo, entre o suicídio indígena e a perda progressiva de terras, ou entre alcoolismo e práticas como a instalação de alambiques nas aldeias.
Nos anos 2000, a população indígena voltou a crescer, num fenômeno associado tanto a políticas governamentais de estímulo populacional como à revalorização da identidade indígena. Segundo o IBGE, o país tinha 734 mil indígenas em 2000, e a população total que se declarou indígena chegou em 2010 a 896 mil pessoas em 305 etnias, falando 274 línguas. Problemas como alcoolismo, depressão e suicídio, porém, já estão instalados.
O roteiro traz ainda textos publicados em vários países do mundo sobre a temática da saúde indígena, em especial sobre os suicídios de jovens indígenas, permitindo que o leitor amplie seus conhecimentos e acompanhe o debate provocado pelo assunto em países como Estados Unidos, Reino Unido e África do Sul.
À academia, fica o desafio de abraçar a saúde mental da população indígena como tema de pesquisa, e o roteiro a seguir resulta de um esforço para colaborar neste sentido.
Boa leitura!
AZEVEDO, Marta Maria. O suicídio entre os guarani kaiowá. In Dossiê Terra Indígena.
Os dois textos abordam o suicídio entre os guarani kaiowá, povo indígena que habita o Centro-Oeste do Brasil, e historiam as origens deste grupo. Em 1990, 31 kaiowás se suicidaram, sendo 19 na Área Indígena de Dourados, município do mesmo nome, em Mato Grosso do Sul. Os dois textos analisam princípios éticos do grupo kaiowá, mitos religiosos e o significado da morte, entendida por eles como uma ida para a verdadeira morada dos deuses, e lista motivos explicitados para os suicídios, como desgostos familiares, perdas e expiação da culpa. “O apelo ao ato extremo dos suicídios precisa ser ouvido e entendido como um apelo e apego a uma determinada maneira de viver, uma qualidade de vida específica kaiowá”, afirma Azevedo, que propõe políticas de trabalho e demarcação de terras como forma de enfrentamento da questão. Oliveira, Brand e Guimarães apontam a necessidade de proibir o arrendamento de terras para não-índios dentro da reserva indígena de Dourados, além da elaboração de um programa de redistribuição interna de terras.
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Num estudo etnográfico, com abordagem multidisciplinar, a autora analisa a ocorrência de suicídios entre os índios Tikúna do Alto Solimões (Amazonas) e destaca a vinculação entre os eventos de suicídio da última década com a exacerbação dos conflitos na região. Em sua avaliação, na base desses confrontos está o abandono a que tal população tem sido submetida pelos órgãos encarregados de políticas públicas para as populações indígenas.
A autora analisa as falas de três lideranças indígenas em reuniões com índios, advogados, antropólogos e outros profissionais em dois painéis para discutir o tema: um organizado pela OAB do Rio de Janeiro e outro pela Comissão Pró-índio de São Paulo, ambos em 1981. Em sua análise, busca compreender como a identidade indígena aparece no discurso dos três líderes e de que forma o etnólogo a compreende, questionando a tendência de objetificar nossos sujeitos de estudo na busca de uma compreensão antropológica.
A partir dos princípios da Análise de Discurso Francesa, as autoras analisam textos publicados em outubro e novembro de 2012 no Facebook pelo Conselho da Aty Guasu, órgão representativo da etnia guarani. Os temas dos textos eram os conflitos entre indígenas e fazendeiros pela posse de terras em Mato Grosso do Sul (MS). Como categorias de análise foram utilizados o esquema protagonista-antagonista de organização da narrativa, proposto por Beaugrande e Colby, e a identificação das marcas de heterogeneidade mostrada. A análise mostra de que modo é construído no discurso um feito de sentido de unicidade, ou seja, de que o que foi dito só poderia ser dito daquela forma.
Os dois textos abordam o problema do alcoolismo entre etnias indígenas do Brasil, fazendo também uma útil revisão bibliográfica sobre o tema e constatando a dificuldade de dimensionar o problema. O primeiro estudo defende a necessidade de compreender o processo de alcoolização em cada etnia para pensar em abordagens preventivas e intervenções efetivas. O segundo discute de o significado ritualístico do uso de bebidas alcoólicas e relembra iniciativas como a instalação de alambiques dentro das áreas indígenas, medida decisiva para influenciar o hábito de beber da etnia Kaingáng. Em conjunto, tem-se a percepção da necessidade de intervenções específicas, pois a questão do alcoolismo e da violência podem ter significado e interpretações muito diferentes para cada grupo étnico, em relação ao mesmo fenômeno.
O artigo analisa o discurso jornalístico sobre as questões indígenas tomando como corpus de análise jornais tradicionais sul-mato-grossenses, como o Correio do Estado (Campo Grande-MS) e O Progresso (Dourados-MS), um jornal o impresso de circulação nacional, a Folha de S.Paulo, e um periódico especializado na questão indígena, Porantim, editado pelo Conselho Indigenista Missionário, CIMI. Segundo os autores, os resultados constatados permitem concluir que as relações de poder, decorrentes da força dos interesses ligados, especialmente, ao agronegócio, condicionam e interferem no caráter das notícias que dizem respeito aos direitos indígenas.
O texto traz o resultado de um levantamento das autoras para localizar artigos produzidos sobre o tema saúde mental em contextos indígenas entre os anos de 1999 e 2012 nas principais plataformas científicas brasileiras (SciELO e BVS-PSI). Ao final de 62 buscas, houve 5.510 resultados, dos quais sobraram apenas 14 artigos. De acordo com o resumo apresentado pelas autoras, as pesquisas sobre o tema são incipientes, e é necessário aprofundar e fundamentar o diálogo intercultural sobre a questão.
O artigo analisa como a imagem indígena é percebida pela população de Dourados (MS) e como aparece nos meios de comunicação locais entre 2005 e 2011. O foco da análise são os elevados índices de suicídio nas aldeias localizadas na cidade. Foram observados os jornais Dourados News, Campo Grande News e Fatima News.
O artigo traz uma revisão de literatura sobre o tema do gênero e do fenômeno do suicídio entre populações indígenas, em busca de respostas que permitam compreender por que motivo as taxas de suicídio entre mulheres indígenas são menores que entre os homens. Segundo a autora, o estado da arte ainda não chegou a uma conclusão sobre isso. A autora aponta ainda a escassez de estudos sobre o tema e a necessidade de aprofundar a questão.
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SANTOS, Clemilton Pereira dos. Suicídio entre índios: uma visão semiótica.
A partir da perspectiva teórica da Semiótica, o autor analisa uma reportagem publicada em 1990 no jornal O Progresso, de Dourados (MS), sobre o suicídio de indígenas. O texto mostra como são construídas as categorias de tempo e espaço, e de que modo a figura indígena é retratada no discurso jornalístico.
O texto analisa as taxas de suicídio entre imigrantes vivendo na Inglaterra e no País de Gales nos anos de 1979-1983. O estudo aborda de modo comparativo as taxas verificadas entre diferentes grupos de imigrantes, como os indianos, caribenhos e africanos. Os autores analisam ainda a ocorrência de suicídio por queimaduras e a maior prevalência do problema entre mulheres.
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Diante da alta incidência de suicídio entre índios americanos, mais elevada que entre outros grupos étnicos, os dois artigos analisam fatores de risco associados ao problema. Entrevistas com profissionais que atuam no campo da prevenção ao suicídio também são usadas no primeiro artigo, que destaca os problemas socioeconômicos, o abuso de drogas e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde como pontos que ajudam a entender o problema. O segundo estudo analisa, a partir de entrevistas, a relação entre espiritualidade e redução das tentativas de suicídio.
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Os quatro estudos mostram a incidência da mortalidade por suicídio entre jovens de tribos indígenas dos Estados Unidos, comparando-a com a verificada na população do país. O primeiro artigo se debruça em particular sobre a situação da reserva Intermountain, onde foram verificados casos de suicídio. O segundo analisa as altas taxas de suicídio no Alasca, alertando sobre fatores de risco e formas de prevenção. O terceiro se detém sobre conceitos como identidade e perdas no entendimento do suicídio como problema de saúde pública. O quarto trabalho, por fim, busca identificar padrões comuns entre jovens suicidas.
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A partir de 50 casos de suicídio de indígenas ocorridos na região de Durban, na África do Sul, os autores analisam as respostas de um questionário aplicado a famílias, parentes e amigos dos mortos. Depressão e abuso de álcool aparecem na maioria dos casos estudados, e o enforcamento foi o método mais comum, seguido da ingestão de substâncias tóxicas.

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