A partir da Análise Institucional do Discurso, baseada em entrevistas com dez policiais militares do Estado de São Paulo, a autora propõe analisar como os policiais relatam seu trabalho, interpretam a hierarquia institucional e como se posicionam e posicionam sua clientela nestes relatos. A análise das entrevistas possibilitou que Azevedo constatasse que há uma dualidade a respeito da clientela no discursos dos soldados da PMSP: clientela boa e clientela algoz. A clientela boa foi retratada pelos entrevistados como pessoas “despossuídas” e desamparadas que depositavam no policial militar a figura de salvador e herói que poderia preencher certas “faltas”. Entretanto, a clientela também configura, segundo os policiais, parte da população que não entende e não se submete a autoridade policial. No discurso dos soldados entrevistados, a clientela foi dividida entre “suspeitos”- que moram em comunidade, de onde o policial espera um reação negativa – e “algozes” – desembargadores, ministros, advogados, promotores, que por vezes se utilizam da autoridade e do prestígio para humilhar os policiais, mas também garantem o bom trabalho dos mesmos. A hierarquia, na percepção dos policiais, está estreitamente relacionada ao horário rigoroso, controlado e normatizado. O desamparo institucional foi um outro fator bastante mencionado pelos entrevistados e o que, de acordo com a autora, implica que muitas vezes os policiais se desloquem de sua percepção de herói da sociedade para herói dos próprios companheiros de trabalho.