Por uma escola que acolhe 2

Reportagem: Caio Brasil, jornalista e pesquisador.
Imagens: Glaudson Danúbio/Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias.


No começo de 2022, um estudante da Escola Municipal Jayme Fichman, no bairro Parque Uruguaiana, em Duque de Caxias, foi mais uma vítima do suicídio. Funcionários da escola contam que o adolescente de 16 anos tinha um sorriso espontâneo e que não demonstrava estar em sofrimento emocional. Familiares do menino também eram alunos na escola, mas não retornaram aos estudos após a tragédia.

O triste caso se soma a outros em que a dificuldade da comunidade escolar para identificar o sofrimento emocional, além do não conhecimento dos modos de acolher e encaminhar à rede de assistência psicossocial, se transformam em aspectos que dificultam a prevenção. E são muitos. O Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, aponta que a taxa de morte por suicídio de crianças e adolescentes vem aumentando no Brasil.

De acordo com o estudo, entre 2010 e 2019, a taxa de mortes por suicídio de crianças e adolescentes entre 5 e 14 anos cresceu 113%, subindo de 0,3 para 0,7 casos a cada 100 mil habitantes da faixa etária. No conjunto de adolescentes entre 15 e 19 anos, a escalada foi de 81%, saltando de 3,5 para 6,4 mortes por suicídio a cada 100 mil pessoas da faixa etária. O Boletim também revela que as notificações de lesões autoprovocadas cresceram 40% entre 2018 e 2019. De todas as 124.709 notificações registradas, 23% correspondem a adolescentes entre 15 e 19 anos e 10% são de crianças e adolescentes com menos de 14 anos.

A pequena escola de ensino fundamental da Baixada Fluminense fica a 260 metros da estação de trem de Saracuruna, a última da linha da SuperVia, e mais da metade dos seus 376 estudantes mora em favelas da região. Em pesquisa desenvolvida pelo IPPES em 2018, ela foi uma das que apresentou maior vulnerabilidade às violências autoprovocadas (ideação suicida, tentativa de suicídio e automutilação). Os números, que vistos de forma distante podem soar frios, revelam o grave problema social que pode ser identificado nas palavras, gestos e olhares dos adolescentes.

O diretor Maxsuel Quenil Pimentel Rodrigues relembra que, antes da pandemia da Covid-19, muitos estudantes demonstravam sofrimento emocional e ocorreram casos de tentativas de suicídio. Entretanto, o profissional de educação aponta que a crise sanitária foi um fator crítico para acentuação do panorama. “Já tínhamos uma escola emocionalmente fragilizada, por conta da presença do tráfico de drogas, desemprego dos pais, divórcios, entre outras coisas. Mas, no retorno pós-pandemia, nossos alunos aparentaram estar ainda mais doentes emocionalmente”, contou o diretor.

Diante das diversas formas de sofrimento que a pandemia poderia acarretar, com lutos, isolamento social, além dos negativos efeitos econômicos e sociais produzidos em uma região com baixa oferta de serviços voltados ao bem estar social e mental, a necessidade de se construir um plano de ação para o enfrentamento dos efeitos à saúde emocional dos estudantes se tornava latente.

 

Intervenção na pandemia

Em setembro de 2021, a Escola Municipal Jayme Fichman passou a receber o “Projeto Escola: uma proposta de intervenção em contexto de pandemia”. A iniciativa tem o objetivo de desenvolver habilidades emocionais para a vida de professores, funcionários e alunos, além de formar multiplicadores de prevenção de violências autoprovocadas. A ação foi uma das selecionadas através da chamada pública para o enfrentamento da Covid-19 em territórios vulneráveis, realizada pela Fiocruz.

A iniciativa, que terá duração de 12 meses, surge da parceria do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) com a Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC), a empresa Comunicação e Expressão Consultoria Especializada, o Laboratório de Análise da Violência da UERJ (LAV-UERJ) e a Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias.

Apesar do pouco tempo do Projeto e da fatalidade no início do ano, o diretor da escola afirma enxergar mudanças no comportamento dos adolescentes. “Muitas vezes eles não conseguiam se expressar, mas hoje já falam melhor sobre o que estão sentindo”, explica Maxsuel, que completa: “Esse trabalho tem surtido efeito. Ainda é inicial, mas já percebemos uma melhora e redução nos casos de tentativas de suicídio”.

No dia 27 de maio foi realizada uma roda de conversa entre a equipe do Projeto Escola com representantes da Fiocruz, da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias, professores, estudantes e funcionários da escola para que pudessem compartilhar as expectativas e impressões sobre o trabalho desenvolvido.

Vilma Soares de Souza Almeida, diretora do Departamento de Educação Básica da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias (SME), revela que o número de casos de ideação suicida entre estudantes da rede tem crescido e a temática da saúde mental é uma preocupação cada vez maior da pasta. “A pandemia reforçou as desigualdades e só unindo os esforços que podemos reduzir esses números. Se pudéssemos, colocaríamos o Projeto em cada uma das nossas 180 escolas”, comenta a diretora da SME.

O coordenador executivo do Plano de Enfrentamento à Covid-19 nas Favelas do Rio de Janeiro, Richarlls Martins, explica que a iniciativa da Fiocruz surgiu devido a constatação de que as condições de habitação, saneamento básico e todo o conjunto de fatores sociodemográficos dessas regiões poderiam dificultar o isolamento social, levando a um possível aumento no número de infecções e mortes. Segundo Richarlls Martins, “o Projeto Escola tem potencial de impacto porque articula diretamente saúde e educação em um campo fundamental, o do sofrimento psíquico. Além disso, mobiliza um conjunto de profissionais multidisciplinares, que pode produzir novos olhares sobre a composição entre saúde, educação e assistência”.

O Projeto Escola foi idealizado para atender a demanda específica de enfrentamento às consequências da pandemia da covid-19 e tem como base o Programa EscolaQPrevine. Inicialmente desenvolvido sobre dois eixos, pesquisa de diagnóstico e formação de multiplicadores de prevenção às violências autoprovocadas, em sua aplicação ao contexto pandêmico foram acrescentados dois novos eixos:  acolhimento psicossocial e terapêutico; e serviço social.

 

Pesquisa de diagnóstico

Produzida pelo IPPES em parceria com o Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV/UERJ), a pesquisa já teve a participação de 50% dos estudantes do 6° ao 9° ano da unidade educacional. O objetivo é traçar um diagnóstico e compreender o sofrimento emocional dos adolescentes, dando subsídios para a melhor intervenção na escola.

O professor da UERJ e coordenador do LAV, Doriam Borges, conduz a pesquisa e se mostra preocupado com o número de estudantes que revelaram comportamentos autolesivos. “Os percentuais e quantidade de adolescentes que identificamos com esse tipo de experiência chamou a atenção. Escutamos alguns relatos enquanto fazíamos a pesquisa. Não imaginei que tantos adolescentes apresentavam esse comportamento de risco”, revela Doriam.

Essa é a segunda pesquisa que o IPPES realiza na escola. A primeira, em 2018, em conjunto com outras instituições de ensino fundamental do município de Duque de Caxias, foi o ponto de partida para a elaboração do Programa EscolaQPrevine. Segundo a coordenadora do Projeto Escola e presidente do IPPES, a socióloga Dayse Miranda, ainda não se pode quantificar o impacto da pandemia na saúde mental dos estudantes. Entretanto, a pesquisadora aponta que há uma mudança significativa nas falas dos alunos. “Percebemos nas narrativas e nos comportamentos dos adolescentes uma facilidade e necessidade de falar sobre o sofrimento mental”, explica Dayse Miranda.

A pesquisa na escola ainda está em andamento e os resultados serão divulgados nos próximos meses.

 

Formação de multiplicadores

A etapa de formação de multiplicadores de prevenção autoprovocadas tem previsão de 12 encontros, com 10 módulos de conteúdo. Iniciada em novembro de 2021, atualmente consiste em 4 horas de encontros online mensais em que professores e estudantes recebem preparo para identificar, acolher e encaminhar pessoas que possam apresentar sofrimento emocional e comportamento de risco. A partir de agosto, após as férias escolares, os encontros passarão a ser presenciais.

Os docentes são instruídos para supervisionar alunos que integram o Projeto e monitoram o bem estar da escola, compondo uma rede estratégica de suporte e prevenção. No final da formação, os participantes são convidados a elaborar, com a supervisão da equipe multidisciplinar, o Plano de Prevenção de Violência Autoprovocada da Escola Municipal Jayme Fichman, que fica como legado para a unidade educacional.

Cláudia Mourão, Coordenadora de Desenvolvimento Educacional do IPPES e diretora da empresa Comunicação e Expressão, é uma das professoras da formação. Fonoaudióloga e mestre Sistemas de Gestão, ela foi a responsável por apresentar a ferramenta Mapa da Empatia. Segundo Cláudia, “os depoimentos registrados nos encontros mostram que o conhecimento angariado e praticado começa a fazer parte do repertório de novas habilidades relacionais aplicadas também nos cenários sociais e familiares destes participantes”.

A professora também avalia de forma positiva a iniciativa. “Cada vez mais se confirma a relevância de projetos como o Projeto Escola. Habilidades socioemocionais são desenvolvidas, há o fortalecimento da autoestima, jovens recuperam a vontade de viver e, principalmente, encontram alternativas para lidar com suas dores e sofrimentos”, comenta Cláudia Mourão.

 

Acolhimento psicossocial e terapêutico

O acolhimento psicossocial e terapêutico é um espaço de diálogo entre estudantes e profissionais de saúde do Projeto em dois níveis. O grupo “Pode Chegar” é um local de escuta e acolhimento psicossocial aberto a todos os membros da comunidade escolar. O objetivo é fortalecer as habilidades socioemocionais dos participantes.

Alunos que apresentam alto risco de desenvolver comportamento autolesivo são direcionados ao atendimento terapêutico online oferecido pelo Projeto. O serviço conta com a colaboração de 8 psicólogos voluntários selecionados em processo seletivo. A psicóloga do Projeto, Maria Inês de Andrade Cruz, avalia a evolução do Projeto junto aos alunos.

“No início passamos por um período de adaptação, mas a busca e a frequência dos alunos são sinais de que o projeto tem dado certo. Os estudantes demonstram estar inseridos, que fazem parte do grupo. Existe uma ideia de pertencimento e desejo de estar no projeto”, explica a voluntária.

Uma vez por mês, pais e responsáveis dos estudantes do Projeto participam de encontros de acolhimento com os psicólogo e assistentes sociais. “Percebemos que o projeto ganharia em qualidade se a gente cuidasse também dos pais ou responsáveis. Por isso criamos esse espaço de escuta qualificada, de fala e de troca”, comenta Dayse Miranda.

 

Serviço social e o mapeamento da rede de atenção à saúde psicossocial do território

As três assistentes sociais voluntárias do projeto estão desenvolvendo o mapeamento dos serviços de atenção psicossocial de Duque de Caxias. O objetivo é garantir o acesso a direitos sociais e equipamentos públicos, além de elaborar o Guia de Orientação ao Serviços de Saúde Mental de Duque de Caxias, que será mais um legado para a escola.

Todas as sextas-feiras, estudantes, pais e professores podem receber orientação das assistentes sociais, que informam sobre os recursos existentes e estabelecem as articulações, fazendo as mediações necessárias para atender as demandas. A assistente social Daniele Fonseca conta “o que mais chamou a atenção quando chegamos na escola foi nos deparar com pais pedindo socorro pela saúde emocional do filho. Hoje eles veem no projeto um ponto de referência e conforto”.

Simone Nogueira, também assistente social do Projeto, explica que “por conta da pandemia, precisamos de mais portas abertas em equipamentos, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Mas dentro das possibilidades, tentamos mediar que o acesso aos serviços seja de forma objetiva. Mas não é só encaminhar por encaminhar. Há um monitoramento a partir dos atendimentos que fazemos”.

Conheça mais sobre o programa EscolaQPrevine. Elaboramos um dossiê que conta o passo a passo da experiência anterior, na Escola Municipal Roberto Weguelin de Abreu, em Jardim Imbarie. Acompanhe também o IPPES nas redes sociais e site e fique por dentro do desenvolvimento do Projeto Escola.