Dois anos do Programa SegurançaQPrevine, a experiência no Rio de Janeiro

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Desde 2022, o Programa SegurançaQPrevine vem se consolidando como uma iniciativa voltadas à promoção da saúde mental e à prevenção do suicídio entre profissionais da segurança pública do Estado do Rio de Janeiro.

Conduzido pelo Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), o programa é realizado em parceria no âmbito do Promocional do Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT-RJ) em parceria com quatro instituições: Polícia Civil (PCRJ), Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP), Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE) e Guarda Municipal do Rio de Janeiro (GMRJ).

A proposta integra o projeto promocional do MPT-RJ que atua na valorização da saúde integral dos trabalhadores e na construção de uma cultura institucional de autocuidado. As ações do programa envolvem atendimentos especializados por meio do Hospital São Francisco na Providência de Deus, desenvolvimento de pesquisas em conjunto com a PUC-Rio e atividades educativas baseadas em evidências, coordenadas pelo IPPES.

Em dois anos, mais de 200 ações e 4 mil profissionais alcançados.

Entre os anos de 2023 e 2024, o SegurançaQPrevine realizou 208 atividades educativas, alcançando diretamente 4.057 profissionais das forças de segurança. O número de ações cresceu em 2024, com 32 iniciativas a mais do que no ano anterior. Avanço impulsionado, sobretudo, pela adesão da Guarda Municipal, que contabilizou só em 2024, 1.181 participantes em 34 atividades.

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Palestras como porta de entrada para o cuidado

Dentre as ações realizadas, as Palestras sobre Saúde Mental e Autocuidado destacaram-se como principal porta de entrada do programa. Foram 77 palestras no total — 43 em 2023 e 34 em 2024.

Apesar de uma leve redução no segundo ano, a entrada da GMRJ garantiu um ganho quantitativo, com 16 palestras realizadas pela instituição só em 2024.

Em relação ao público participante, observou-se um aumento no total de profissionais alcançados, que passou de 796 em 2023 para 899 em 2024. Crescimento sustentado quase exclusivamente pela Guarda Municipal, que respondeu por 577 desses participantes. Nas demais instituições, o número de participantes caiu de forma expressiva: a SEAP perdeu 304 pessoas, o DEGASE 106 e a SEPOL 64. Tendência esperada após o primeiro ano de implementação do Programa.

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Palestras Temáticas: Diálogos especializados

As Palestras Temáticas, criadas em 2024, focam em temas urgentes e específicos relacionados ao cotidiano dos profissionais de segurança pública. No primeiro ano de implementação, o programa realizou um total de 54 palestras. As instituições SEAP e DEGASE foram as que mais realizaram essas palestras, com 22 e 20 edições, respectivamente, representando mais da metade do total de palestras realizadas no ano. Embora a Guarda Municipal do Rio de Janeiro (GM-RJ) tenha liderado o número de palestras focadas em Saúde Mental (com 16 no total), ela contou com apenas 6 palestras temáticas. A Polícia Civil (SEPOL) também somou 6 palestras, destacando-se pelo interesse em discussões sobre saúde mental.

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Oficinas de Gestão Humanizada e os Workshops de Saúde Mental: cuidado também para os que lideram

As Oficinas de Gestão Humanizada e os Workshops de Saúde Mental, voltados especialmente para gestores das instituições de segurança, também tiveram papel central na estratégia de iniciar um diálogo sobre saúde integral.

Ao todo, foram realizadas 38 oficinas no biênio, sendo 20 em 2023 e 18 em 2024. O público participante somou 847 gestores, com uma leve queda entre os anos (462 em 2023 e 385 em 2024). Apesar da queda registrada, essas oficinas seguem sendo espaços estratégicos para envolver lideranças e abrir o diálogo sobre o cuidado dentro das corporações.

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Rodas de Conversa e o enfrentamento do suicídio

Outra frente importante do programa foram as Rodas de Conversa com foco exclusivo na prevenção do suicídio, realizadas sob o tema “Mitos e Verdades sobre o Comportamento Suicida”.

Ao todo foram 39 rodas, 25 em 2023 e 14 em 2024. As reduções mais significativas ocorreram na SEAP, que passou de 11 para 3 encontros, e na SEPOL, que caiu de 9 para apenas 2. Apesar disso, a diferença no total de participantes foi relativamente pequena, caindo de 378 para 313.

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Interiorização avança, mas aquém do esperado

Embora a capital tenha concentrado a maior parte das atividades (151), o programa vem ampliando sua presença fora do município do Rio de Janeiro. Em 2024, foram realizadas 37 ações em cidades do interior e da Região Metropolitana — quase o dobro das 20 atividades externas registradas em 2023. As regiões com maior número de ações foram o Norte Fluminense, com 16 atividades (principalmente em Campos dos Goytacazes), Niterói/São Gonçalo, com 15, e a Baixada Fluminense, com 13. Apesar do crescimento, a interiorização ainda não atingiu as metas esperadas após o primeiro ano de execução.

Sinais de alerta: sofrimento psíquico entre profissionais de segurança pública

Um dos pontos mais sensíveis revelados pelo programa diz respeito ao estado emocional dos profissionais participantes. A partir de questionários aplicados durante as atividades, foi possível identificar um cenário preocupante de sofrimento psíquico nas instituições.

As queixas mais recorrentes incluíram ansiedade e apatia (716 respostas), insônia e distúrbios do sono (708), irritabilidade (642), exaustão mental (515), problemas de memória (497) e dificuldade de concentração (482). Esses dados sugerem uma sobrecarga emocional generalizada, atingindo inclusive gestores e servidores em postos de liderança.

Curiosamente, os questionários indicam que a maioria dos profissionais relatou até quatro sintomas, o que pode sugerir quadros agudos e específicos de sofrimento, mais do que um mal-estar generalizado e difuso. Mesmo assim, o nível de adoecimento é alarmante, especialmente entre trabalhadores da linha de frente, expostos rotineiramente a situações de alta pressão e risco.

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Baixo acesso a tratamento reforça urgência de ações

Apesar da prevalência elevada de sintomas emocionais, o acesso ao cuidado especializado ainda é muito limitado. Dos profissionais ouvidos, 782 afirmaram não estar em nenhum tipo de acompanhamento psiquiátrico e psicoterapêutico. Outros dados também chamam atenção: apenas 297 estavam em acompanhamento terapêutico, 198 em tratamento psiquiátrico e 101 em licença médica por motivos psicológicos. Em alguns casos, os mesmos participantes selecionaram mais de uma dessas opções, o que evidencia a gravidade da situação e a sobreposição de quadros clínicos.

Entre os fatores que explicam essa baixa adesão ao tratamento estão o estigma em torno da saúde mental, o medo de retaliações institucionais, a falta de apoio interno adequado, a dificuldade de reconhecer a própria condição emocional e a desconfiança nas áreas de saúde das corporações. Muitas vezes, o silêncio e o receio de demonstrar vulnerabilidade impedem que os profissionais busquem o cuidado de que necessitam.

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Próximos passos: ampliar o diálogo e escuta qualificada, romper o silêncio e fortalecer a rede de cuidado

Diante desses dados, o desafio do SegurançaQPrevine passa agora a ser o fortalecimento das ações educativas, a ampliação do acesso ao atendimento especializado e, sobretudo, o enfrentamento das barreiras institucionais e culturais que ainda dificultam o cuidado com a saúde mental no setor da segurança pública.

Romper o silêncio, construir confiança e garantir suporte real aos profissionais são passos urgentes e necessários para preservar vidas e promover ambientes de trabalho mais saudáveis e humanos.

Siglas da Legenda:

PSMA: Palestra de Saúde Mental e Autocuidado
RC: Roda de Conversa
OGH: Oficina de Gestão Humanizada
WSM: Workshop de Saúde Mental
PT: Palestra Temática

SEAP: Secretaria de Estado de Administração Penitenciária
SEPOL: Secretaria Estadual da Polícia Civil /RJ
GM-RIO: Guarda Municipal do Rio de Janeiro
DEGASE: Departamento Geral de Ações Socioeducativas

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